Almeida Henriques

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Boys

O exercício do poder é legitimo e quem tem a confiança dos eleitores deve faze-lo, mas sempre no estrito respeito da separação das realidades que são os partidos e o Estado e nunca perdendo de vista o bem público e a perspectiva de serviço à comunidade.

Em fim de mandato e quatro anos e meio depois de ter alcançado a maioria absoluta, o PS confunde constantemente o interesse partidário com a máquina do estado, são inúmeros os casos.

Veja-se a situação do lançamento do Magalhães há dois anos em que usou figurantes e não alunos verdadeiros, numa visita de Sócrates a uma Escola, veja-se agora a utilização abusiva de crianças de uma escola do Alentejo para um anúncio ou tempo de antena do PS.

É uma constante a pressão do governo sobre os jornalistas e instituições para que passe a “verdade oficial”, vivendo-se uma situação que já foi, justamente, apelidada de “asfixia democrática”.

No domínio da economia, são já socialistas como Henrique Neto que denunciam a situação das “empresas do regime”.

Ainda há dias alertei para uma situação de nomeação de pessoas da confiança de Manuel Pinho para a gestão de empresas privadas em que o Estado, através do capital de risco, coloca dinheiro, uma situação legítima, dirão, mas do ponto de vista ético duvidosa; numa das empresas o administrador nomeado, além de amigo do Ministro, é também marido de uma das administradoras que o nomeia; há quase um Mês que aguardo resposta.

Ao nível do Distrito, vive-se a mesma realidade asfixiante, quem se der ao trabalho de ir a um hotel da nossa cidade à segunda feira verifica “in loco” o exercício do poder socialista com os diferentes boys nomeados para os lugares a concertarem actuações e a receberem instruções da liderança distrital.

Os resultados estão á vista e são, no mínimo, indecorosos.

Há poucos meses foram as candidaturas ao QREN dos caminhos rurais, denunciei situações em Mangualde, pelos vistos a condição para aprovação das candidaturas era o facto de a Junta ser ou não governada por um socialista.

Agora foi a vez dos Gabinetes de Inserção Profissional, situação denunciada pelos Presidentes de Câmaras do PSD, afinal de contas, todas as Câmaras socialistas foram contempladas, Resende, Cinfães, Tarouca e Mortágua e, nas restantes autarquias, a constante foi a contemplação de Juntas de Freguesia socialistas ou instituições que têm à sua frente socialistas, haja um pouco de decoro!

Indo ao extremo, se olharmos para as candidaturas socialistas às autarquias do distrito, salta logo à vista um facto, o excessivo número de pessoas titulares de cargos por nomeação que são candidatos.

Em Viseu, o candidato sempre carrasco em relação às questões locais e também sempre subserviente ao poder central, em Mangualde o assessor do grupo parlamentar do PS, em S. Pedro do Sul o responsável da ARS no distrito, em Santa Comba Dão um assessor do Governo Civil, em Tabuaço o director do Centro de Emprego, em Vouzela o responsável regional das florestas, isto para só citar os que tenho de memória.

Desde logo duas questões, as nomeações para os lugares serviram para dar visibilidade para serem candidatos ou para dar disponibilidade de tempo para prepararem as candidaturas?

Uma conclusão, é mesmo um PS em fim de ciclo, que não tem capacidade para recrutar candidaturas na sociedade civil, que se fecha cada vez mais no casulo que é o partido, divorciado da realidade e das expectativas das populações, mesmo para arranjar candidatos a Câmaras tem que os recrutar de entre os boys que nomeou nestes quatro anos e meio.

Apesar do registo são opções legítimas, o que já não é admissível é a influência de poder e a confusão entre o que é o Partido e o aparelho do Estado, haja decoro e, pelo menos, alguma vergonha.

In Noticias de Viseu, 14 de Maio de 2009

Estado e PS, que confusão!

No último debate quinzenal o líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, relembrou a constante situação de confusão entre o aparelho de estado e o aparelho do partido socialista.
Veja-se a situação do lançamento do Magalhães há dois anos em que usou figurantes e não alunos verdadeiros, numa visita de Sócrates a uma Escola, veja-se agora a utilização abusiva de crianças de uma escola do Alentejo para um anúncio ou tempo de antena do PS.

É uma constante a pressão do governo sobre os jornalistas e instituições para que passe a “verdade oficial”, vivendo-se uma situação que já foi, justamente, apelidada de “asfixia democrática”.

No domínio da economia, são já socialistas como Henrique Neto que denunciam a situação das “empresas do regime”.

Ainda há dias denunciei uma situação de nomeação de pessoas da confiança de Manuel Pinho para a gestão de empresas privadas em que o Estado, através do capital de risco, coloca dinheiro, uma situação legítima, dirão, mas do ponto de vista ético duvidosa; numa das empresas o administrador nomeado, além de amigo do Ministro, é também marido de uma das administradoras que o nomeia.

Ao nível do Distrito, vive-se a mesma realidade asfixiante, ainda há poucos meses foram as candidaturas ao QREN dos caminhos rurais, denunciei situações em Mangualde, pelos vistos a condição para aprovação das candidaturas era o facto de a Junta ser ou não governada por um socialista.

Agora foi a vez dos Gabinetes de Inserção Profissional, situação denunciada pelos Presidentes de Câmaras do PSD, afinal de contas, todas as Câmaras socialistas foram contempladas, Resende, Cinfães, Tarouca e Mortágua e, nas restantes autarquias, a constante foi a contemplação de Juntas de Freguesia socialistas ou instituições que têm à sua frente socialistas, haja um pouco de decoro!

Apoiar a economia, ouvir a sociedade e a oposição!

No que às empresas diz respeito, o Primeiro-ministro anunciou uma linha de crédito INVEST IV, mas não esclareceu se o dinheiro disponível chegará às empresas ou se, mais uma vez, vai ser a banca a reforçar as suas garantias.

Finalmente parece olhar para as exportações, vem reconhecer que as medidas tomadas não produziram qualquer efeito e que as empresas, muitas vezes têm mercado, mas não conseguem aprovar seguros de crédito às exportações.

Em diferentes debates parlamentares sugeri que o Governo avocasse a si a questão dos seguros de crédito.

A acreditar nas palavras do Primeiro-ministro será o caminho que sugeri que vai ser seguido em matéria de seguros de crédito, vou aguardar para ver, espero que reconheçam a “bondade” de mais esta proposta da oposição.

Muito lentamente, perdendo oportunidade, a teimosia do Governo vai adiando as medidas essenciais para ajudar as micro e PME neste contexto de crise.

Tudo o que possa ajudar a melhorar a liquidez das empresas, promover as exportações e estimular as economias de proximidade, terá o meu apoio.

O que esta conjuntura precisa, o que as empresas precisam é de: acesso ao crédito em condições vantajosas, sem spread escandalosos; que o Estado pague a horas, o último relatório conhecido diz que somos dos piores pagadores, apesar da propaganda do governo; um apoio forte e célere à exportação de bens e serviços bem como conquista de novos mercados; apoio efectivo à inovação e promoção do empreendedorismo.

Basta copiar o que outros governos europeus estão a fazer bem, basta seguir sugestões que o PSD tem apresentado, sem a habitual teimosia do PS de considerar que tudo o que propomos é errado, vindo mais tarde a dar-nos razão.

In Diário de Viseu, 14 de Maio de 2009

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Olhar a China, quatro anos depois

O sábio teme o céu sereno.


Em compensação, quando vem a tempestade,


Caminha sobre as ondas e desafia o vento.


Não te suponhas tão grande que os outros te pareçam pequenos.


Confúcio



Há quatro anos e meio visitei a China e recordo-me de escrever sobre o espírito deste povo, a pujança da economia e a capacidade criadora que permitiu ver, em cerca de 10 dias de visita quatro territórios pujantes , Pequim, Xi-An, Cantão e Hong Kong, aterrar em quatro aeroportos com menos de cinco anos e uma rede de auto estradas capaz de fazer inveja aos europeus.

Nesta altura, ano de 2004, a economia crescia ao ritmo de 12% ao ano, situação que se manteve entre 2000 e 2008, a China apostava no mercado interno, nas exportações, na captação de investimento, tirava partido do crescimento do mundo e preparava a organização dos Jogos Olímpicos 2008.

Questionava-me sobre as diferenças que iria encontrar e sobre os reflexos da crise internacional.

Logo na viagem, nada de novo, as 12 horas de viagem, com escala em Frankfurt e o voo até Pequim num avião cheio de homens de negócios, tudo normal!

Aterrei no aeroporto de Pequim, de proporções gigantescas, boa arquitectura, funcional e preparado para os Jogos Olímpicos, primeira surpresa, muito menos aviões, diria mesmo, alguns terminais “às moscas”, onde estavam as multidões e o bulício de há quatro anos?

No percurso para o hotel, a cidade estaleiro tinha dado lugar a uma nova urbe com 16 milhões de pessoas, mais harmoniosa, um tráfego mais fluido, muitas zonas verdes e árvores e jardins, dando um aspecto mais cosmopolita e saudável, um ar menos carregado do que tinha sentido.

As obras emblemáticas lá estavam, a cidade olímpica com o célebre “ninho”, o estádio que serviu de palco às magnificas abertura e encerramento, o espaço onde Phelps cilindrou vários recordes olímpicos e mundiais, toda a capacidade de concretização deste povo com mais de 4.000 anos de história, que foi capaz de construir a muralha da China, o único monumento visível do espaço.

Este Povo que tem como referência e filosofia de vida um personagem que viveu há mais de 2.500 anos, Confúcio, e que parece querer ressuscitá-lo e “vendê-lo” ao mundo.

De facto, através da Professora Yu Dan, Confúcio é hoje cada vez mais popular na China e no mundo, esta estudiosa e excelente comunicadora alimenta um programa semanal de grande audiência na televisão sobre este pensador e já vendeu mais de 20 milhões de exemplares do seus livros sobre o confucionismo.

Sustenta que Confúcio, que colocava a mãe no centro da família, está mais actual do que nunca, defende que as qualidades para uma pessoa ser bem sucedida neste mundo de hoje, são as que Confúcio defendeu, a simpatia (ajudar as pessoas para estabelecerem uma cadeia, as redes da actualidade), a sabedoria (ajuda as pessoas a desenvolverem-se) e a bravura (arrojo para fazer, a coragem para se abalançarem).

Valoriza, como Confúcio, os valores da Modéstia e da Tolerância.

De facto, dito assim, e se extrapolarmos para a economia, descortinamos a capacidade comercial na simpatia, a aposta na inovação na sabedoria e a capacidade empreendedora na bravura, condições fundamentais para o sucesso da economia chinesa.

Será que estamos perante uma China desenvolvida que se vira cada vez mais para o Confucionismo? Afinal de contas o pensamento mais longínquo do budismo que só aparece nos anos 200 aC.

A China pragmática que convive muito bem com um pensamento milenar.

Poderemos entender melhor este pensamento dentro de poucos meses, quando estes livros forem traduzidos e lançados em português e tivermos a visita desta professora universitária cujo nome devemos fixar, Yu Dan.

Como curiosidade da importância que o Português ganha para o mundo, a CCTV, a televisão estatal da China, programa avançar com um canal com emissão na nossa língua no ano 2010, depois de ter efectuado a abertura em espanhol e inglês.

Conto estes pormenores pela curiosidade que comportam, desviando-me do tema da minha reflexão, a reacção da China à crise internacional.

Recorde-se que com a assumpção do poder por parte de Hu Jintao (a partir de 2000), que sucede a Jiang Zemin, os pilares da estratégia económica assentavam no investimento em infra estruturas, o aumento exponencial das exportações, a criação de empresas com identidade global por aquisição de empresas internacionais (exemplo da IBM), aumento do consumo interno e redução da dependência das exportações e investimento.

Todo este desenvolvimento conduziu a China ao patamar que ocupa hoje:

O País mais populoso do mundo, 1.300 milhões de pessoas, 20% da população mundial; 1 em cada 5 habitantes do mundo serão chineses no ano de 2040, com todo o potencial de crescimento do mercado interno que isto comporta.

Tem 48 cidades com mais de um milhão de habitantes.

A China é já a segunda economia do mundo em ppp ( 84ª no produto per capita ) e o segundo maior investidor em inovação, cerca de 140 biliões de dólares anuais.

Com a crise internacional, são sobretudo as províncias mais industrializadas e dependentes das exportações que sofrem, calcula-se que se perderam mais de 20 milhões de postos de trabalho, sobretudo de migrantes rurais, os tais que abandonaram a terra e foram à procura de melhores condições, saindo do limiar da pobreza, um grave problema novo que a crise trouxe ao País.

Só no quarto trimestre de 2008 o decréscimo das exportações foi da ordem dos 30% e o primeiro de 2009 manteve a mesma tendência.

Para termos um padrão de comparação, estima-se que cada 1% de crescimento do PIB cria 1 milhão de postos de trabalho.

Como se explica que com este crescimento do desemprego e das exportações a China perspective crescer 8% em 2009.

Como resposta a estes problemas, a Assembleia Nacional Popular aprovou um pacote de medidas anti crise, só que todos os apoios se dirigiram para a economia real, pois o sistema financeiro estava forte e não houve necessidade de lhe injectar dinheiro.

Este plano direccionou 4.000 milhões de dólares para investimento de proximidade, redução de impostos em produtos de consumo como imobiliário e sector automóvel (no 1º. trimestre venderam-se dois milhões e setecentos mil veículos novos), criação de um conjunto de medidas de estimulo à criação de emprego e algumas medidas para as populações de mais baixo rendimento e incremento do turismo interno.

Os resultados estão à vista, a China sente muito menos a crise que o resto do mundo, reage à diminuição da procura externa estimulando a procura interna.

Obviamente que estamos para ver como reage à pressão do regresso dos desempregados ao mundo rural, como se comportará a sociedade que se habituou a viver de acordo com certos padrões e a tirar 40 milhões de pessoas por ano do estado de pobreza, o grande desafio para a China é como irá conciliar o desenvolvimento económico e estabilidade social e o crescimento das assimetrias regionais.

Obviamente que tem que conviver com problemas como a sustentabilidade social do seu modelo desenvolvimento, a estrutura etária e o envelhecimento da sua população, os problemas ambientais, a modernização das suas instituições e a própria pressão da sociedade mas, para já, aparentemente, está a ganhar mais esta batalha, em desfavor do ocidente.

Portugal tem que aproveitar este potencial e a proximidade histórica que temos, no ano em que se comemoram os 30 anos do restabelecimento das relações diplomáticas e 10 anos da transferência da soberania de Macau, deveríamos fazer um esforço de estreitar os laços económicos.

São cerca de trinta as principais empresas portuguesas estabelecidas na China, é preciso duplicar este número, bem como incrementar os fluxos comerciais entre os dois países, promovendo investimento chinês (só 10 empresas chinesas investiram no nosso País nos últimos cinco anos) em Portugal e potenciando exportações portuguesas.

Os chineses viajam cada vez mais, o turismo deveria ser mais estimulado, é um dos sectores que poderá crescer duma forma mais rápida, uma ligação aérea Lisboa Pequim poderia ajudar muito.

O nosso desenvolvimento no domínio das energias renováveis é também um campo a explorar.

A política pode e deve ajudar a economia, estas datas que referi poderiam ser melhor aproveitadas, esta missão parlamentar chefiada pelo Dr. Jaime Gama provou-o.

Não poderemos no futuro desperdiçar um mercado que representa 20% da humanidade e aquela que se poderá tornar na maior economia do mundo, com toda a capacidade de investimento que comporta.

Simplesmente a China dos grandes crescimentos que concilia pragmatismo com o pensamento de Confúcio.
In Revista Invest, 7 de Maio de 2009

A China de Confúcio

Quatro anos depois, regressei à China numa visita de trabalho, procurando diferenças e verificando os progressos desde 2004.
No percurso para o hotel, a cidade estaleiro de Pequim tinha dado lugar a uma nova urbe com 16 milhões de pessoas, mais harmoniosa, um tráfego mais fluido, muitas zonas verdes e árvores e jardins, dando um aspecto mais cosmopolita e saudável, um ar menos carregado do que tinha sentido.

As obras emblemáticas lá estavam, a cidade olímpica com o célebre “ninho”, o estádio que serviu de palco às magnificas abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim, o espaço onde Phelps cilindrou vários recordes olímpicos e mundiais, toda a capacidade de concretização deste povo com mais de 4.000 anos de história, que foi capaz de construir a muralha da China, o único monumento visível do espaço.

Este Povo que tem como referência e filosofia de vida um personagem que viveu há mais de 2.500 anos, Confúcio, e que parece querer ressuscitá-lo e “vendê-lo” ao mundo.

De facto, através da Professora Yu Dan, Confúcio é hoje cada vez mais popular na China e no mundo, esta estudiosa e excelente comunicadora alimenta um programa semanal de grande audiência na televisão sobre este pensador e já vendeu mais de 20 milhões de exemplares do seus livros sobre o confucionismo.

Sustenta que Confúcio, que colocava a mãe no centro da família, está mais actual do que nunca, defende que as qualidades para uma pessoa ser bem sucedida neste mundo de hoje, são as que Confúcio defendeu, a simpatia (ajudar as pessoas para estabelecerem uma cadeia, as redes da actualidade), a sabedoria (ajuda as pessoas a desenvolverem-se) e a bravura (arrojo para fazer, a coragem para se abalançarem).

Valoriza, como Confúcio, os valores da Modéstia e da Tolerância.

De facto, dito assim, e se extrapolarmos para a economia, descortinamos a capacidade comercial na simpatia, a aposta na inovação na sabedoria e a capacidade empreendedora na bravura, condições fundamentais para o sucesso da economia chinesa.

Será que estamos perante uma China desenvolvida que se vira cada vez mais para o Confucionismo? Afinal de contas o pensamento mais longínquo do budismo que só aparece nos anos 200 aC.

A China pragmática que convive muito bem com um pensamento milenar.

Poderemos entender melhor este pensamento dentro de poucos meses, quando estes livros forem traduzidos e lançados em português e tivermos a visita desta professora universitária cujo nome devemos fixar, Yu Dan.

Como curiosidade da importância que o Português ganha para o mundo, a CCTV, a televisão estatal da China, programa avançar com um canal com emissão na nossa língua no ano 2010, depois de ter efectuado a abertura em espanhol e inglês.

É esta a China que responde à crise internacional com o seu sistema financeiro sólido e que prevê crescer, mesmo assim, 8% este ano.

É esta China de Confúcio que devemos aproveitar no ano em que comemoramos 30 anos de restabelecimento diplomático com Portugal e 10 anos de transferência de poderes de Macau.

A China de Confúcio continua a ser uma oportunidade para os portugueses, desde os primeiros contactos no século XVI.

In Noticias de Viseu, 07 de Maio de 2009

Olhar a China, quatro anos depois

O sábio teme o céu sereno.
Em compensação, quando vem a tempestade,
Caminha sobre as ondas e desafia o vento.
Não te suponhas tão grande que os outros te pareçam pequenos.
Confúcio

Há quatro anos e meio visitei a China e recordo-me de escrever sobre o espírito deste povo, a pujança da economia e a capacidade criadora que permitiu ver, em cerca de 10 dias de visita quatro territórios pujantes , Pequim, Xi-An, Cantão e Hong Kong, aterrar em quatro aeroportos com menos de cinco anos e uma rede de auto estradas capaz de fazer inveja aos europeus.
Nesta altura, ano de 2004, a economia crescia ao ritmo de 12% ao ano, situação que se manteve entre 2000 e 2008, a China apostava no mercado interno, nas exportações, na captação de investimento, tirava partido do crescimento do mundo e preparava a organização dos Jogos Olímpicos 2008.
Questionava-me sobre as diferenças que iria encontrar e sobre os reflexos da crise internacional.
Logo na viagem, nada de novo, as 12 horas de viagem, com escala em Frankfurt e o voo até Pequim num avião cheio de homens de negócios, tudo normal!
Aterrei no aeroporto de Pequim, de proporções gigantescas, boa arquitectura, funcional e preparado para os Jogos Olímpicos, primeira surpresa, muito menos aviões, diria mesmo, alguns terminais “às moscas”, onde estavam as multidões e o bulício de há quatro anos?
No percurso para o hotel, a cidade estaleiro tinha dado lugar a uma nova urbe com 16 milhões de pessoas, mais harmoniosa, um tráfego mais fluido, muitas zonas verdes e árvores e jardins, dando um aspecto mais cosmopolita e saudável, um ar menos carregado do que tinha sentido.
As obras emblemáticas lá estavam, a cidade olímpica com o célebre “ninho”, o estádio que serviu de palco às magnificas abertura e encerramento, o espaço onde Phelps cilindrou vários recordes olímpicos e mundiais, toda a capacidade de concretização deste povo com mais de 4.000 anos de história, que foi capaz de construir a muralha da China, o único monumento visível do espaço.
Este Povo que tem como referência e filosofia de vida um personagem que viveu há mais de 2.500 anos, Confúcio, e que parece querer ressuscitá-lo e “vendê-lo” ao mundo.
De facto, através da Professora Yu Dan, Confúcio é hoje cada vez mais popular na China e no mundo, esta estudiosa e excelente comunicadora alimenta um programa semanal de grande audiência na televisão sobre este pensador e já vendeu mais de 20 milhões de exemplares do seus livros sobre o confucionismo.
Sustenta que Confúcio, que colocava a mãe no centro da família, está mais actual do que nunca, defende que as qualidades para uma pessoa ser bem sucedida neste mundo de hoje, são as que Confúcio defendeu, a simpatia (ajudar as pessoas para estabelecerem uma cadeia, as redes da actualidade), a sabedoria (ajuda as pessoas a desenvolverem-se) e a bravura (arrojo para fazer, a coragem para se abalançarem).
Valoriza, como Confúcio, os valores da Modéstia e da Tolerância.
De facto, dito assim, e se extrapolarmos para a economia, descortinamos a capacidade comercial na simpatia, a aposta na inovação na sabedoria e a capacidade empreendedora na bravura, condições fundamentais para o sucesso da economia chinesa.
Será que estamos perante uma China desenvolvida que se vira cada vez mais para o Confucionismo? Afinal de contas o pensamento mais longínquo do budismo que só aparece nos anos 200 aC.
A China pragmática que convive muito bem com um pensamento milenar.
Poderemos entender melhor este pensamento dentro de poucos meses, quando estes livros forem traduzidos e lançados em português e tivermos a visita desta professora universitária cujo nome devemos fixar, Yu Dan.
Como curiosidade da importância que o Português ganha para o mundo, a CCTV, a televisão estatal da China, programa avançar com um canal com emissão na nossa língua no ano 2010, depois de ter efectuado a abertura em espanhol e inglês.
Conto estes pormenores pela curiosidade que comportam, desviando-me do tema da minha reflexão, a reacção da China à crise internacional.
Recorde-se que com a assumpção do poder por parte de Hu Jintao (a partir de 2000), que sucede a Jiang Zemin, os pilares da estratégia económica assentavam no investimento em infra estruturas, o aumento exponencial das exportações, a criação de empresas com identidade global por aquisição de empresas internacionais (exemplo da IBM), aumento do consumo interno e redução da dependência das exportações e investimento.
Todo este desenvolvimento conduziu a China ao patamar que ocupa hoje:
O País mais populoso do mundo, 1.300 milhões de pessoas, 20% da população mundial; 1 em cada 5 habitantes do mundo serão chineses no ano de 2040, com todo o potencial de crescimento do mercado interno que isto comporta.
Tem 48 cidades com mais de um milhão de habitantes.
A China é já a segunda economia do mundo em ppp ( 84ª no produto per capita ) e o segundo maior investidor em inovação, cerca de 140 biliões de dólares anuais.
Com a crise internacional, são sobretudo as províncias mais industrializadas e dependentes das exportações que sofrem, calcula-se que se perderam mais de 20 milhões de postos de trabalho, sobretudo de migrantes rurais, os tais que abandonaram a terra e foram à procura de melhores condições, saindo do limiar da pobreza, um grave problema novo que a crise trouxe ao País.
Só no quarto trimestre de 2008 o decréscimo das exportações foi da ordem dos 30% e o primeiro de 2009 manteve a mesma tendência.
Para termos um padrão de comparação, estima-se que cada 1% de crescimento do PIB cria 1 milhão de postos de trabalho.
Como se explica que com este crescimento do desemprego e das exportações a China perspective crescer 8% em 2009.
Como resposta a estes problemas, a Assembleia Nacional Popular aprovou um pacote de medidas anti crise, só que todos os apoios se dirigiram para a economia real, pois o sistema financeiro estava forte e não houve necessidade de lhe injectar dinheiro.
Este plano direccionou 4.000 milhões de dólares para investimento de proximidade, redução de impostos em produtos de consumo como imobiliário e sector automóvel (no 1º. trimestre venderam-se dois milhões e setecentos mil veículos novos), criação de um conjunto de medidas de estimulo à criação de emprego e algumas medidas para as populações de mais baixo rendimento e incremento do turismo interno.
Os resultados estão à vista, a China sente muito menos a crise que o resto do mundo, reage à diminuição da procura externa estimulando a procura interna.
Obviamente que estamos para ver como reage à pressão do regresso dos desempregados ao mundo rural, como se comportará a sociedade que se habituou a viver de acordo com certos padrões e a tirar 40 milhões de pessoas por ano do estado de pobreza, o grande desafio para a China é como irá conciliar o desenvolvimento económico e estabilidade social e o crescimento das assimetrias regionais.
Obviamente que tem que conviver com problemas como a sustentabilidade social do seu modelo desenvolvimento, a estrutura etária e o envelhecimento da sua população, os problemas ambientais, a modernização das suas instituições e a própria pressão da sociedade mas, para já, aparentemente, está a ganhar mais esta batalha, em desfavor do ocidente.
Portugal tem que aproveitar este potencial e a proximidade histórica que temos, no ano em que se comemoram os 30 anos do restabelecimento das relações diplomáticas e 10 anos da transferência da soberania de Macau, deveríamos fazer um esforço de estreitar os laços económicos.
São cerca de trinta as principais empresas portuguesas estabelecidas na China, é preciso duplicar este número, bem como incrementar os fluxos comerciais entre os dois países, promovendo investimento chinês (só 10 empresas chinesas investiram no nosso País nos últimos cinco anos) em Portugal e potenciando exportações portuguesas.
Os chineses viajam cada vez mais, o turismo deveria ser mais estimulado, é um dos sectores que poderá crescer duma forma mais rápida, uma ligação aérea Lisboa Pequim poderia ajudar muito.
O nosso desenvolvimento no domínio das energias renováveis é também um campo a explorar.
A política pode e deve ajudar a economia, estas datas que referi poderiam ser melhor aproveitadas, esta missão parlamentar chefiada pelo Dr. Jaime Gama provou-o.
Não poderemos no futuro desperdiçar um mercado que representa 20% da humanidade e aquela que se poderá tornar na maior economia do mundo, com toda a capacidade de investimento que comporta.
Simplesmente a China dos grandes crescimentos que concilia pragmatismo com o pensamento de Confúcio.
In Revista Invest, 7 de Maio de 2009
A China de Confúcio




Quatro anos depois, regressei à China numa visita de trabalho, procurando diferenças e verificando os progressos desde 2004.

No percurso para o hotel, a cidade estaleiro de Pequim tinha dado lugar a uma nova urbe com 16 milhões de pessoas, mais harmoniosa, um tráfego mais fluido, muitas zonas verdes e árvores e jardins, dando um aspecto mais cosmopolita e saudável, um ar menos carregado do que tinha sentido.

As obras emblemáticas lá estavam, a cidade olímpica com o célebre “ninho”, o estádio que serviu de palco às magnificas abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim, o espaço onde Phelps cilindrou vários recordes olímpicos e mundiais, toda a capacidade de concretização deste povo com mais de 4.000 anos de história, que foi capaz de construir a muralha da China, o único monumento visível do espaço.

Este Povo que tem como referência e filosofia de vida um personagem que viveu há mais de 2.500 anos, Confúcio, e que parece querer ressuscitá-lo e “vendê-lo” ao mundo.

De facto, através da Professora Yu Dan, Confúcio é hoje cada vez mais popular na China e no mundo, esta estudiosa e excelente comunicadora alimenta um programa semanal de grande audiência na televisão sobre este pensador e já vendeu mais de 20 milhões de exemplares do seus livros sobre o confucionismo.

Sustenta que Confúcio, que colocava a mãe no centro da família, está mais actual do que nunca, defende que as qualidades para uma pessoa ser bem sucedida neste mundo de hoje, são as que Confúcio defendeu, a simpatia (ajudar as pessoas para estabelecerem uma cadeia, as redes da actualidade), a sabedoria (ajuda as pessoas a desenvolverem-se) e a bravura (arrojo para fazer, a coragem para se abalançarem).

Valoriza, como Confúcio, os valores da Modéstia e da Tolerância.

De facto, dito assim, e se extrapolarmos para a economia, descortinamos a capacidade comercial na simpatia, a aposta na inovação na sabedoria e a capacidade empreendedora na bravura, condições fundamentais para o sucesso da economia chinesa.

Será que estamos perante uma China desenvolvida que se vira cada vez mais para o Confucionismo? Afinal de contas o pensamento mais longínquo do budismo que só aparece nos anos 200 aC.

A China pragmática que convive muito bem com um pensamento milenar.

Poderemos entender melhor este pensamento dentro de poucos meses, quando estes livros forem traduzidos e lançados em português e tivermos a visita desta professora universitária cujo nome devemos fixar, Yu Dan.

Como curiosidade da importância que o Português ganha para o mundo, a CCTV, a televisão estatal da China, programa avançar com um canal com emissão na nossa língua no ano 2010, depois de ter efectuado a abertura em espanhol e inglês.

É esta a China que responde à crise internacional com o seu sistema financeiro sólido e que prevê crescer, mesmo assim, 8% este ano.

É esta China de Confúcio que devemos aproveitar no ano em que comemoramos 30 anos de restabelecimento diplomático com Portugal e 10 anos de transferência de poderes de Macau.

A China de Confúcio continua a ser uma oportunidade para os portugueses, desde os primeiros contactos no século XVI.

In Noticias de Viseu, 07 de Maio de 2009

China, as respostas à crise

Há quatro anos atrás, visitei pela primeira vez a China, pelo que nesta visita de trabalho que estou a efectuar, estava curioso para ver a evolução e o impacto da crise no País.

Recordo-me de escrever sobre o espírito deste povo, a pujança da economia e a capacidade criadora que permitiu ver, em cerca de 10 dias de visita quatro territórios pujantes , Pequim, Xi-An, Cantão e Hong Kong, aterrar em quatro aeroportos com menos de cinco anos e uma rede de auto estradas capaz de fazer inveja aos europeus.

Nesta altura, ano de 2004, a economia crescia ao ritmo de 12% ao ano, situação que se manteve entre 2000 e 2008, a China apostava no mercado interno, nas exportações, na captação de investimento, tirava partido do crescimento do mundo e preparava a organização dos Jogos Olímpicos 2008.

A era de Hu Jintao conduziu a China ao patamar que ocupa hoje:

O País mais populoso do mundo (1.300 milhões) com 48 cidades com mais de um milhão de habitantes que já é a segunda economia do mundo em ppp ( 84ª no produto per capita ) e o segundo maior investidor em inovação, cerca de 140 biliões de dólares anuais.

Com a crise internacional, são sobretudo as províncias mais industrializadas e dependentes das exportações que sofrem, calcula-se que se perderam mais de 20 milhões de postos de trabalho, sobretudo de migrantes rurais, os tais que abandonaram a terra e foram à procura de melhores condições, saindo do limiar da pobreza, um grave problema novo que a crise trouxe ao País.

Só no quarto trimestre de 2008 o decréscimo das exportações foi da ordem dos 30% e o primeiro de 2009 manteve a mesma tendência.

Não percebia como os responsáveis continuam a perspectivar um crescimento de 8% para este ano.

Foi-me explicado que tinham adoptado um pacote de medidas anti crise, só que todos os apoios se dirigiram para a economia real, pois o sistema financeiro estava forte e não houve necessidade de lhe injectar dinheiro.

Este plano direccionou 4.000 milhões de dólares para investimento de proximidade, redução de impostos em produtos de consumo como imobiliário e sector automóvel (no 1º. trimestre venderam-se dois milhões e setecentos mil veículos novos), criação de um conjunto de medidas de estimulo à criação de emprego e algumas medidas para as populações de mais baixo rendimento e incremento do turismo interno.

Os resultados estão à vista, a China sente muito menos a crise que o resto do mundo, reage à diminuição da procura externa estimulando a procura interna.

Obviamente que estamos para ver como reage à pressão do regresso dos desempregados ao mundo rural, como se comportará a sociedade que se habituou a viver de acordo com certos padrões e a tirar 40 milhões de pessoas por ano do estado de pobreza, o grande desafio para a China é como irá conciliar o desenvolvimento económico e estabilidade social e o crescimento das assimetrias regionais.

Apesar de todos estes constrangimentos para já, aparentemente, está a ganhar mais esta batalha, em desfavor do ocidente, num período de crise continua a crescer… 8% ao ano.

Temos de colocar aqui os olhos e aproveitar o potencial de aproximação das duas economias, aproveitar o momento politico que é a comemoração dos 30 anos de restabelecimento diplomático e de 10 anos da transferência de soberania de Macau.

Esta missão parlamentar prova que há um caminho a seguir pelo governo e pela economia, a tal real, das empresas com o apoio do Governo.

In Diário de Viseu, 07 de Maio de 2009